Grimória · Sabbats · Samhain

Guia do sabbat · Hemisfério Sul

Samhain no Brasil é em abril.

Em 31 de outubro o Brasil está em plena primavera. Samhain marca a entrada da estação escura: por aqui, o festival dos mortos e ano-novo da bruxa cai na noite de 30 de abril para 1º de maio, quando os dias encurtam de verdade. Este é o guia do sabbat com a história documentada, a mesa, o ritual e os encaixes brasileiros.

SAMHAIN pronuncia-se "SÔ-uin"
No Brasil: 30 de abril / 1º de maio No Hemisfério Norte: 31 de outubro
O que marca: a entrada da estação escura. O festival dos mortos e o ano-novo da bruxa.
Próximo Samhain no Brasil
Emblema de Samhain: caveira e galhos, gravura dourada sobre fundo escuro, recortado da Roda do Ano da Coleção Grimória

Emblema de Samhain · Roda do Ano da Coleção Grimória

01A data certa

Por que 30 de abril, e não 31 de outubro

Os sabbats não são datas de folhinha: são marcos das estações. Samhain abre a metade escura do ano, quando o frio chega, o ar seca e a natureza recolhe. No Hemisfério Norte isso acontece no fim de outubro. No Brasil, acontece no fim de abril.

Celebrar Samhain em outubro, morando aqui, é recitar um roteiro escrito para o céu de outro hemisfério: honrar a "entrada do inverno" no meio da primavera, com ipê florindo na rua. Por isso as comunidades pagãs da Austrália, da Nova Zelândia, da África do Sul e da América do Sul giram a Roda do Ano meio ano, e o Samhain do Sul cai na noite de 30 de abril para 1º de maio.

As duas práticas existem e a escolha é sua. O critério completo para decidir, com a tabela definitiva das datas brasileiras dos oito sabbats, está no Volume II da coleção, A Roda do Ano. As datas do ano corrente, calculadas por efemérides, ficam no Calendário da Bruxa.

Se você só celebrar um sabbat por ano, que seja este.

02Com fontes, sempre

A história real, camada por camada

A camada antiga. Nas fontes irlandesas medievais, Samhain aparece como o grande marco do calendário: o "fim do verão" pastoril, quando o gado voltava dos pastos altos e a comunidade se reunia em assembleias, como as célebres reuniões de Tara. Era um tempo de fronteira, e as narrativas o tratam como tal: nos contos irlandeses, é em Samhain que os montes do Outro Mundo se abrem e as criaturas do síd cruzam para o lado de cá. Fronteira entre estações, fronteira entre mundos.

A camada cristã. O cristianismo assentou sobre essa data o dia de Todos os Santos (1º de novembro) e o dia de Finados (2 de novembro). A véspera, o All Hallows' Eve, virou o Halloween. Os costumes que o mundo conhece têm genealogia documentada no folclore britânico e irlandês: as lanternas de rosto assustador eram esculpidas em nabos na Irlanda e na Escócia (a abóbora é adaptação americana), e as brincadeiras de adivinhação com maçãs e nozes na noite de Halloween estão registradas em detalhe no século XVIII, inclusive no poema "Halloween" de Robert Burns, de 1785.

A camada moderna. O Samhain wiccano como festival dos mortos ritualizado, com a ceia silenciosa e o altar de ancestrais, é elaboração do século XX sobre esse fundo antigo, e é uma das criações mais bonitas da bruxaria moderna. Como sempre nesta editora: saber a camada de cada coisa não desfaz o encanto, ancora ele.

Não existe (e nunca existiu) um "deus Samhain"

Circula há dois séculos a lenda de que Samhain seria o "deus celta da morte", repetida de almanaques do século XIX até panfletos religiosos contra o Halloween. As fontes celtas não registram deus nenhum com esse nome: Samhain é o nome da festa e do período do ano, provavelmente ligado a "fim do verão". Se alguém te disser que você celebra "o deus da morte", você agora sabe mais do que quem inventou a história.

03O espírito do festival

Três coisas que Samhain trabalha

🕯

A memória

É o tempo de nomear os seus mortos, contar as histórias deles e garantir que ninguém que você amou vire silêncio. Em um país que corre como o nosso, uma noite por ano dedicada a isso é quase um ato de resistência.

O encerramento

Como ano-novo da bruxa, Samhain é o momento de olhar o ciclo que termina: o que morreu na sua vida este ano, o que precisa ser enterrado com honra. A estação escura não é castigo: é o pousio, a terra descansando para dar de novo.

A sombra

Com os dias encurtando, a tradição convida a olhar para dentro, para o que costumamos evitar. Não por morbidez: por inteireza.

04A mesa e os símbolos

O que pôr no altar

Cores

Preto (a estação escura), branco (a memória), laranja e vinho (as folhas do outono).

No altar

Fotografias ou objetos dos seus mortos queridos; velas brancas, uma para cada pessoa honrada; maçãs, a fruta-símbolo do festival e do outono brasileiro; abóboras, que aqui são colheita de outono de verdade; folhas secas colhidas na rua.

Correspondências tradicionais

Alecrim, a erva da lembrança; cravo e canela; obsidiana e ônix entre os cristais; incenso de olíbano ou mirra.

Na cozinha

Abóbora assada, maçã, doce de abóbora e o prato favorito de quem você vai honrar. O preparo, feito com calma e pensando na pessoa, já é parte do rito.

05A prática

O ritual de 10 minutos

Sem tempo, sem espaço ou sem privacidade para um ritual completo? Esta versão curta é inteira do mesmo jeito. A Roda não mede a cerimônia; mede a presença.

A vela dos nomes

Você vai precisar de: uma vela branca, uma foto (ou lembrança) dos seus mortos queridos e um cafezinho recém-passado.

  1. Acenda a vela branca junto à foto, em um canto quieto da casa.
  2. Diga os nomes em voz alta, um a um. Nome completo. Nomes ditos em voz alta têm um peso que o pensamento não tem.
  3. Ponha ao lado o cafezinho. Sirva aos seus antepassados o que eles de fato bebiam. Poucas ofertas são tão nossas, e tão certeiras na memória afetiva, quanto um café passado para quem sempre o tomou com você.
  4. Fique um minuto em silêncio com eles. Se quiser, conte uma novidade do seu ano. Sim, é permitido chorar. O ritual aguenta.
  5. Apague a vela agradecendo. Está feito, e está inteiro.

Segurança primeiro: nunca deixe uma chama acesa sem vigilância, e mantenha velas longe de cortinas, crianças e animais.

O ritual completo do sabbat, a Ceia dos Nomes, com o círculo traçado passo a passo, a ceia servida aos ancestrais e o encerramento do ciclo por escrito, está na ficha de Samhain do Volume II, A Roda do Ano, junto com as fichas dos outros sete sabbats.

Memória não tem cota anual.

06Sabor de Brasil

Três encaixes que nenhum livro do Norte te daria

O crisântemo é a flor

No Brasil, o crisântemo é tradicionalmente a flor de Finados, vendida aos montes nos cemitérios. Um punhado deles no altar de Samhain une o costume do país à Roda girada, e a florista da esquina vira fornecedora ritual.

O cafezinho dos mortos

Em vez do vinho ou da cidra dos livros importados, sirva aos seus antepassados o que eles de fato bebiam: café. A memória afetiva agradece.

E Finados, em novembro?

O Dia de Finados brasileiro (2 de novembro) herda a data do calendário cristão do Norte. A bruxa da Roda girada não precisa escolher: honre ritualmente os seus mortos em Samhain, em abril, e visite, leve flores e acompanhe a família em novembro.

07Perguntas frequentes

O que todo mundo pergunta

Quando é Samhain no Brasil?
Na noite de 30 de abril para 1º de maio, quando o outono avança no Hemisfério Sul e os dias encurtam de verdade. A data de 31 de outubro vale para o Hemisfério Norte.
Samhain é a mesma coisa que Halloween?
São parentes, não sinônimos. Samhain é o antigo marco de calendário irlandês do fim do verão pastoril. Sobre essa data o cristianismo assentou o Dia de Todos os Santos, e a véspera (All Hallows' Eve) virou o Halloween, com costumes documentados no folclore britânico e irlandês. O Samhain wiccano, com ceia e altar de ancestrais, é uma elaboração do século XX sobre esse fundo antigo.
Posso celebrar em 31 de outubro morando no Brasil?
Pode, e há quem prefira, pela força cultural do Halloween. Mas em outubro o Brasil está em plena primavera, e Samhain marca a entrada da estação escura. Quem segue a Roda girada celebra em abril, acompanhando as estações reais do lugar onde vive. As duas práticas existem; o critério para escolher está no Volume II da coleção.
Existe um deus chamado Samhain?
Não. A lenda do "deus celta da morte" circula desde almanaques do século XIX, mas as fontes celtas não registram nenhum deus com esse nome. Samhain é o nome da festa e do período do ano.
Como se pronuncia Samhain?
Aproximadamente "SÔ-uin". No irlandês, o "mh" soa como um "u" ou "v" fraco, por isso a pronúncia surpreende quem lê a palavra pela primeira vez.
Tenho pouco tempo. O que fazer?
O ritual de 10 minutos desta página: uma vela branca junto a uma foto, os nomes ditos em voz alta, um cafezinho ao lado, um minuto de silêncio e a vela apagada com agradecimento. Está feito, e está inteiro.

De onde vem o que esta página afirma

A camada histórica segue a historiografia acadêmica do calendário ritual britânico e irlandês, sobretudo Ronald Hutton, The Stations of the Sun (Oxford, 1996), nos capítulos sobre Samhain e Halloween: as assembleias irlandesas, as lanternas de nabo e as adivinhações da noite de Halloween. O poema "Halloween" de Robert Burns (1785) serve de registro de época dos costumes. A leitura do Samhain wiccano como criação do século XX segue Hutton, The Triumph of the Moon (Oxford, 1999). A Ceia dos Nomes é elaboração da Coleção Grimória sobre o costume moderno da ceia silenciosa.

Data astronômica é fato com fonte; significado ritual é tradição, dita como tradição. É a regra da casa. Leia também: Imbolc no Brasil, o sabbat de 1º de agosto.

Este guia é a ficha resumida de um livro inteiro.

O Volume II, A Roda do Ano, traz as fichas completas dos oito sabbats nas datas brasileiras, os rituais passo a passo com versão de 10 minutos e a tabela definitiva do Hemisfério Sul. E o guia de iniciação, Meu Primeiro Grimório, é grátis.

Volume I — Meu Primeiro Grimório Volume II — A Roda do Ano
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