Grimória · Figuras · O deus Samhain
Figuras da bruxaria · Fato ou lenda
Todo Halloween ele volta: o "deus celta da morte" a quem os pagãos sacrificariam na noite de 31 de outubro. Nenhuma fonte celta registra esse deus. Samhain é o nome de uma festa, e a história de como ela virou divindade é mais interessante do que a lenda.
Emblema da festa de Samhain · Roda do Ano da Coleção Grimória
Fato histórico. Samhain é o nome irlandês de uma festa e de um período do ano. Nas fontes irlandesas medievais ele aparece como o grande marco do calendário: o "fim do verão" pastoril, quando o gado voltava dos pastos altos e a comunidade se reunia em assembleias, como as célebres reuniões de Tara. O nome é ligado, provavelmente, à ideia de "fim do verão".
Tradição. Nos contos irlandeses, é em Samhain que os montes do Outro Mundo se abrem e as criaturas do síd cruzam para o lado de cá. É narrativa, não culto registrado, e é dela que vem a fama de noite de fronteira entre os mundos.
Lenda. Um "deus Samhain", senhor da morte, a quem se ofereceriam sacrifícios. As fontes celtas não registram deus nenhum com esse nome.
Samhain é o nome da festa, não de quem se festeja.
No fim do século XVIII, antiquários britânicos tentavam explicar a origem dos irlandeses ligando-os a povos do Oriente, com etimologias criativas e nenhuma prova. É a uma dessas especulações, atribuída ao antiquário Charles Vallancey, que se costuma remontar a ideia de um "Samhain" senhor da morte. A teoria geral dele foi abandonada pelos estudiosos; o deus inventado, não.
No século XIX, a figura passou a ser repetida em almanaques e livros populares, de cópia em cópia, sem que ninguém voltasse às fontes irlandesas.
No século XX, chegou aos panfletos religiosos contra o Halloween, que a usam até hoje para dizer que quem celebra a data "adora o deus da morte". É assim que uma lenda sobrevive: ninguém confere, todos repetem.
Porque a lenda serve para assustar. Quem celebra Samhain na bruxaria moderna honra os seus antepassados e encerra um ciclo, com velas, fotos e uma ceia de memória. Não há deus da morte, não há sacrifício e não há diabo: o diabo é uma figura da teologia cristã e não faz parte da cosmologia wiccana. Saber a camada de cada coisa não desfaz o encanto, ancora ele.
Os sabbats acompanham as estações. No Hemisfério Sul, Samhain, a festa dos mortos, cai na noite de 30 de abril para 1º de maio, quando os dias encurtam de verdade. E 31 de outubro, aqui, é Beltane, o festival do fogo e da alegria de estar vivo: enquanto a vitrine vende caveiras, a Roda girada celebra a vida em dobro.
O guia completo da festa, com a história em camadas, o altar e um ritual de 10 minutos, está em Samhain no Brasil.
A camada histórica segue Ronald Hutton, The Stations of the Sun (Oxford, 1996), nos capítulos sobre Samhain e Halloween, e a literatura medieval irlandesa sobre o síd, via Hutton. A origem da lenda no antiquarismo do século XVIII segue a historiografia sobre Charles Vallancey; a data exata da publicação em que a ideia aparece ainda está sendo conferida e por isso não é citada aqui. O texto parte do Volume II da Coleção Grimória, A Roda do Ano, capítulo 3.
Fato com fonte; tradição dita como tradição; lenda chamada de lenda. É a regra da casa. Leia também: Samhain no Brasil · Imbolc no Brasil · Calendário da bruxa.
O Volume II, A Roda do Ano, traz as fichas completas dos oito sabbats nas datas brasileiras, os rituais passo a passo com versão de 10 minutos e a tabela definitiva do Hemisfério Sul. E o guia de iniciação, Meu Primeiro Grimório, é grátis.