Nunca ouviu falar de I Ching? Comece por Onde estamos: a época, o lugar e as pessoas, em cinco minutos.
Estação das chuvas. Na casa de um senhor de Zhou, a viga-mestra do telhado range. Ela é forte no meio, mas as pontas, apoiadas nas paredes, já não aguentam o peso. Todo mundo olha para cima.
Na sala ao lado, antes da oferenda, alguém estende no chão uma esteira de capim branco, com um cuidado quase exagerado. Lá fora, um salgueiro velho, que todos davam por morto, soltou brotos novos.
A consulta deu O Grande Excesso: o Lago cobrindo a árvore. Tempo fora do comum, que pede gente fora do comum. E coragem medida: atravessar o rio, sim, mas sem deixar a água passar da cabeça.
A viga é forte no meio. Então por que ela está para quebrar?
O nome chinês, 大過 (dà guò, diz-se "dá guô"), quer dizer grande excesso: passar muito da conta.
Cada hexagrama traz duas camadas de texto antigo. O julgamento é a sentença do hexagrama inteiro. Depois vêm seis frases, uma para cada linha, lidas de baixo para cima.
Cada linha tem um nome que parece código: "Seis na primeira", "Nove na segunda". Nove quer dizer linha inteira; seis, linha partida. No 28, só a primeira e a última são partidas.
Algumas expressões voltam o livro todo. Sem culpa: você não errou. Infortúnio: sinal ruim. Humilhação: passar vergonha. Nem culpa nem louvor: não é erro, mas também não é mérito.
O trigrama de baixo costuma ser o Vento; aqui ele é lido como Madeira, a árvore. Por isso a cena fala do Lago cobrindo a árvore.
As frases de cerca de 3 mil anos, traduzidas do chinês. Embaixo de cada uma, em cinza, uma ponte nossa dizendo onde estamos na cena.
A viga-mestra se enverga. Favorável ter para onde ir. Êxito.Texto antigo · as seis linhas, de baixo para cima pontes: leitura da Grimória
Por último, uma frase que não é do livro original: a Grande Imagem, um comentário escrito séculos depois, entre uns 400 e 100 anos antes de Cristo, por estudiosos que liam cada hexagrama como duas imagens da natureza. Nela aparece o nobre, que é a pessoa de caráter reto, não necessariamente rica.
Comentário posterior · a Grande Imagem, séc. IV a II a.C.O lago cobre a árvore: o Grande Excesso. O nobre fica de pé sozinho sem medo e se retira do mundo sem amargura.
O desenho explica o nome: quatro linhas inteiras no meio e duas partidas nas pontas, uma viga pesada demais nas extremidades fracas.
As linhas 2 e 5 julgam casamento por idade e sexo com os valores de uma corte do século IX antes de Cristo, os anos 800 a.C. A página mostra isso como história, não como conselho.
É a própria viga: grossa e forte no meio, fraca nas duas pontas. O nome do hexagrama está desenhado nele.
Um comentário antigo, o Grande Comentário, explica a linha 1: pôr as oferendas direto no chão já bastaria; forrar com capim branco é cuidado a mais, e por isso não há culpa. Em tempo de peso fora do comum, todo cuidado é pouco. Comentário posterior
Três perguntas sobre o hexagrama 28. Abre numa janela só sua: o resto da página espera.
O que na sua vida está carregando peso demais nas pontas, e precisa de reforço antes de ceder?
Chinês do Zhouyi: Wikisource, 周易/大過 · tradução conferida com James Legge, The Yî King, 1882 (domínio público); tradução para o português da Grimória, sem usar a edição brasileira do Wilhelm · milefólio anotado em números no período Zhou Ocidental: Shaughnessy, The Origin and Early Development of the Zhou Changes, Brill, 2022 (acesso aberto) · termos fixos: 吉 bom augúrio, 凶 infortúnio, 无咎 sem culpa, 亨 êxito (na época Zhou, também "oferenda"), 利貞 favorável perseverar · a história completa: De onde vem o I Ching.
Coleção Chinesa · em tradução
Cinco já estão prontos. Os outros 59 estão sendo traduzidos do texto antigo, separando o que tem 3 mil anos do que foi escrito depois. Deixe o seu e-mail e você fica sabendo quando estiverem no ar.
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