Grimória · I Ching · História · Comece aqui

A história do I Ching · comece aqui

Onde estamos

Antes de abrir o livro, vamos à terra onde ele nasceu. Não precisa saber nada de China: começamos do zero.

  1. 0 · Onde estamos
  2. 1 · Antes do livro o fogo e o casco
  3. 2 · Os adivinhos de Zhou
  4. 3 · As 49 varetas
  5. 4 · O livro vira sabedoria
  6. 5 · A viagem ao Ocidente
中

中 · zhōng · meio · em chinês, a China se chama "o país do meio"

Letra
01A cena
Cena reconstruída · imaginada por nós a partir das fontes no pé da página

Imagine um vale enorme, de terra amarela e fina como farinha, cortado por um rio largo e barrento. É o norte da China, há uns 3 mil anos.

Não há asfalto, nem papel, nem moedas como as nossas. Há aldeias de casas de terra batida, campos de painço e, no meio delas, a cidade murada do rei.

Num pátio do palácio, um homem conta, em silêncio, as hastes secas de uma planta. Está fazendo uma pergunta ao Céu em nome do rei. Tudo o que vem nesta jornada começa com esse gesto.

02A pergunta

Um livro de 3 mil anos, de um país do outro lado do mundo, ainda é consultado hoje, aqui no Brasil. Como uma coisa tão distante chegou tão perto?

03.1Quando

Mais de 2 mil anos antes de Cabral

Para nós, "antigo" costuma ser o tempo dos avós, ou a chegada de Cabral, em 1500. O I Ching é muito mais velho. As frases dele foram escritas por volta do ano 800 antes de Cristo: uns 2.300 anos antes de Cabral chegar à Bahia.

Antes de Cristo (abreviado a.C.) é como contamos os anos que vieram antes do ano 1 do nosso calendário. Ali a conta anda ao contrário: quanto maior o número, mais longe no passado. O ano 1200 a.C. é mais antigo que o ano 800 a.C.

Uma conta para sentir o tamanho disso. Se toda a história do I Ching, do primeiro casco de tartaruga até hoje, coubesse num dia de 24 horas, o Brasil desde Cabral ocuparia só as últimas 4 horas.

  1. 1200 a.C.os cascos de tartaruga de Anyang
  2. 1046 a.C.os Zhou tomam o poder dos Shang
  3. 800 a.C.mais ou menos aqui, as frases do I Ching
  4. 551 a.C.nasce Confúcio
  5. 256 a.C.fim dos Zhou
  6. ano 1começa a nossa contagem dos anos
  7. 1500Cabral chega ao Brasil
  8. 1924a tradução de Wilhelm, o livro verde
  9. 2026hoje: você, lendo isto

ShangZhouo Brasil, desde Cabral

Quanto mais tempo se passou entre dois marcos, mais comprido é o trecho da linha entre eles.
03.2Onde

Do outro lado do planeta

A China fica na Ásia, quase do lado oposto do planeta em relação ao Brasil. Quando é meio-dia em Brasília, já são onze da noite em Pequim, a capital chinesa de hoje.

BrasilChinauns 17 mil km
A China fica quase do outro lado do planeta: de Brasília a Anyang são uns 17 mil quilômetros em linha reta.

Mas a China desta história é bem menor que a de hoje. É um pedaço do norte, em volta do Rio Amarelo, que tem esse nome por causa da lama amarela que carrega. Foi nesse vale que se formaram alguns dos primeiros reinos chineses.

A cidade do capítulo 1, Anyang (diz-se "an-iang"), fica perto desse rio, uns 450 quilômetros ao sul de Pequim: um pouco mais que a estrada de São Paulo ao Rio.

03.3Quem

Reis, adivinhos e camponeses

Quase todo mundo era camponês. Plantava painço, um cereal de grão miúdo, criava porcos e dependia da chuva na hora certa.

No alto ficavam o rei e algumas famílias nobres. As duas famílias de reis desta história são os Shang (diz-se "xang") e, depois deles, os Zhou (diz-se "djôu"). Uma família que governa por gerações se chama dinastia.

Eles acreditavam que os antepassados mortos continuavam por perto e podiam ajudar ou atrapalhar. Os Zhou punham acima de tudo o Céu: não o céu azul, mas o poder que decidia quem merecia governar. Por isso o rei era chamado de Filho do Céu.

Para não errar, o rei perguntava. Antes de uma guerra, de uma colheita, de uma viagem ou de um parto, os adivinhos da corte faziam uma consulta. O I Ching nasceu desse costume.

03.4Como se comunicavam

Uma escrita sem letras

Falavam chinês antigo, avô do chinês de hoje. E escreviam de um jeito muito diferente do nosso: em vez de letras que formam palavras, cada sinal é uma palavra inteira. Esse sinal se chama caractere. Por isso o chinês tem milhares deles, e não 26.

Quase ninguém sabia ler. Escrever era trabalho de poucos: os escribas e os adivinhos da corte. O resto das pessoas guardava tudo de cabeça e passava adiante falando.

Escreviam no que havia. Riscavam cascos de tartaruga e ossos, gravavam vasos de bronze e, mais tarde, pintavam a pincel em tiras finas de bambu, amarradas umas às outras como uma persiana. Isso era um livro. O papel só apareceria muitos séculos depois.

Para escrever o som do chinês com as nossas letras existe um sistema oficial, o pinyin. É por isso que você vai ver o mesmo livro escrito I Ching, a grafia antiga criada por ingleses, e Yijing, a de hoje. Os dois se dizem mais ou menos "i tching".

03.5Por que importa hoje

Mais perto do que parece

O I Ching saiu da China e deu a volta ao mundo. Em 1924, um alemão que tinha vivido anos na China, Richard Wilhelm, publicou uma tradução que se espalhou pelo Ocidente. No Brasil ela sai pela Editora Pensamento, e muita gente a conhece como "o livro verde".

Quando alguém joga três moedas e lê um hexagrama num site ou num aplicativo, está fazendo uma versão mais nova de uma consulta que começou nos pátios da corte Zhou.

Só que o I Ching que circula hoje mistura camadas de épocas diferentes: frases de 3 mil anos, comentários de 2 mil e leituras de ontem. Nesta jornada a gente separa uma coisa da outra com selos. Eles aparecem ao lado de cada informação:

Fato
O que se vê numa escavação, num objeto ou num documento da época.
Tradição acadêmica
O que a maioria dos estudiosos pensa hoje, sem prova definitiva.
Lenda
O que se conta e se repete, mas não tem prova.
Leitura moderna
O que se diz hoje sobre o livro e não está no texto antigo.
Cena reconstruída
Uma cena imaginada por nós, com o que as fontes contam, para você enxergar a época.
04Faça você

Ache no mapa

marRio Amarelo

Hao e Luoyang foram as duas capitais dos Zhou: primeiro Hao, perto da cidade que hoje se chama Xi'an; depois Luoyang. A linha pontilhada é a fronteira da China de hoje, só para você se situar.

05Curiosidade que explica

Uma árvore, um bosque, uma floresta

Muitos caracteres começaram como desenhos. 木 (mù) é uma árvore: o tronco, os galhos, as raízes. Dois juntos, 林 (lín), são um bosque. Três, 森 (sēn), uma floresta. É assim que um único sinal consegue valer uma palavra inteira. Fato

06Os nomes da jornada

O pequeno dicionário

Os nomes que vão aparecer na jornada. Cada lição abre com os seus, e todos ficam guardados aqui:

I Ching
Diz-se "i tching". Um livro chinês de uns 3 mil anos, feito de 64 figuras, cada uma com frases curtas, usado para consultar. O nome quer dizer Livro das Mutações. Hoje também se escreve Yijing: é o mesmo livro.
Hexagrama
Cada uma das 64 figuras do livro: seis linhas empilhadas, inteiras ou partidas. Lê-se de baixo para cima, como quem sobe uma escada.
Trigrama
Metade de um hexagrama: três linhas. São só oito, e cada um ganhou uma imagem da natureza: Céu, Terra, Fogo, Água, Trovão, Vento, Montanha e Lago.
Linha que muda
A linha que, na consulta, sai "velha" e vira o contrário: a inteira fica partida, a partida fica inteira. Com isso, a figura vira outra.
Dinastia
Uma família que governa por várias gerações, passando o trono de pai para filho.
Shang
Diz-se "xang". A família de reis (uma dinastia) que governou o norte da China de uns 1600 a 1046 antes de Cristo. É a época dos cascos de tartaruga.
Zhou
Diz-se "djôu". A família de reis que veio depois dos Shang e governou de 1046 a 256 antes de Cristo. É dessa época que vêm as frases do I Ching.
Rei Wen
Diz-se "uên". O pai do fundador da dinastia Zhou. A lenda diz que foi ele quem escreveu os hexagramas; os estudiosos de hoje não confirmam.
Milefólio
Uma planta do campo, parente da que no Brasil se vende como mil-folhas. Os adivinhos contavam as hastes secas dela para consultar.
Caractere
Cada sinal da escrita chinesa. Não é uma letra: cada caractere vale uma palavra inteira.
Confúcio
O sábio chinês mais famoso, que viveu de 551 a 479 antes de Cristo. A tradição diz que ele escreveu comentários do I Ching; os estudiosos de hoje acham que não. O capítulo 4 conta por quê.
Dez Asas
Os dez comentários escritos séculos depois do texto antigo, que transformaram o I Ching em livro de sabedoria.
Yin e yang
Dois nomes que os comentadores deram, séculos depois das frases do livro, às duas forças que se completam: yin, o lado escuro e macio, que recebe; yang, o lado claro e firme, que age. A linha partida virou yin; a inteira, yang.
Richard Wilhelm
Missionário alemão que viveu na China e publicou, em 1924, a tradução que espalhou o I Ching pelo Ocidente. No Brasil, é o livro verde da Editora Pensamento.
07Teste rápido

Três perguntas sobre onde estamos. Abre numa janela só sua: o resto da página espera.

08Para ir fundo
Pergunta para você levar

Que pergunta você faria ao Céu, se o rei deixasse você entrar naquele pátio?

Capítulo 1 de 5Antes do livro: o fogo e o cascoagora sim, a história começa
De onde vem isto (fontes)

Shaughnessy, The Origin and Early Development of the Zhou Changes, Brill, 2022 (acesso aberto) · Keightley, Sources of Shang History, University of California Press, 1978 · Penn Museum, The Case of the Wayward Oracle Bone · Universidade de Shandong, origem do Zhouyi · fuso horário: Brasília UTC−3, Pequim UTC+8 · a conta das 24 horas: de 1200 a.C. a 2026 são uns 3.225 anos; desde 1500, 526 anos, isto é, 3 h 55 min do dia.

Coleção Chinesa · em tradução

Os 64 hexagramas, traduzidos do chinês, com a fonte de cada frase.

Cinco já estão prontos. Os outros 59 estão sendo traduzidos do texto antigo, separando o que tem 3 mil anos do que foi escrito depois. Deixe o seu e-mail e você fica sabendo quando estiverem no ar.

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A mesma régua, na bruxaria.

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