Imagine um vale enorme, de terra amarela e fina como farinha, cortado por um rio largo e barrento. É o norte da China, há uns 3 mil anos.
Não há asfalto, nem papel, nem moedas como as nossas. Há aldeias de casas de terra batida, campos de painço e, no meio delas, a cidade murada do rei.
Num pátio do palácio, um homem conta, em silêncio, as hastes secas de uma planta. Está fazendo uma pergunta ao Céu em nome do rei. Tudo o que vem nesta jornada começa com esse gesto.
Um livro de 3 mil anos, de um país do outro lado do mundo, ainda é consultado hoje, aqui no Brasil. Como uma coisa tão distante chegou tão perto?
Para nós, "antigo" costuma ser o tempo dos avós, ou a chegada de Cabral, em 1500. O I Ching é muito mais velho. As frases dele foram escritas por volta do ano 800 antes de Cristo: uns 2.300 anos antes de Cabral chegar à Bahia.
Antes de Cristo (abreviado a.C.) é como contamos os anos que vieram antes do ano 1 do nosso calendário. Ali a conta anda ao contrário: quanto maior o número, mais longe no passado. O ano 1200 a.C. é mais antigo que o ano 800 a.C.
Uma conta para sentir o tamanho disso. Se toda a história do I Ching, do primeiro casco de tartaruga até hoje, coubesse num dia de 24 horas, o Brasil desde Cabral ocuparia só as últimas 4 horas.
ShangZhouo Brasil, desde Cabral
A China fica na Ásia, quase do lado oposto do planeta em relação ao Brasil. Quando é meio-dia em Brasília, já são onze da noite em Pequim, a capital chinesa de hoje.
Mas a China desta história é bem menor que a de hoje. É um pedaço do norte, em volta do Rio Amarelo, que tem esse nome por causa da lama amarela que carrega. Foi nesse vale que se formaram alguns dos primeiros reinos chineses.
A cidade do capítulo 1, Anyang (diz-se "an-iang"), fica perto desse rio, uns 450 quilômetros ao sul de Pequim: um pouco mais que a estrada de São Paulo ao Rio.
Quase todo mundo era camponês. Plantava painço, um cereal de grão miúdo, criava porcos e dependia da chuva na hora certa.
No alto ficavam o rei e algumas famílias nobres. As duas famílias de reis desta história são os Shang (diz-se "xang") e, depois deles, os Zhou (diz-se "djôu"). Uma família que governa por gerações se chama dinastia.
Eles acreditavam que os antepassados mortos continuavam por perto e podiam ajudar ou atrapalhar. Os Zhou punham acima de tudo o Céu: não o céu azul, mas o poder que decidia quem merecia governar. Por isso o rei era chamado de Filho do Céu.
Para não errar, o rei perguntava. Antes de uma guerra, de uma colheita, de uma viagem ou de um parto, os adivinhos da corte faziam uma consulta. O I Ching nasceu desse costume.
Falavam chinês antigo, avô do chinês de hoje. E escreviam de um jeito muito diferente do nosso: em vez de letras que formam palavras, cada sinal é uma palavra inteira. Esse sinal se chama caractere. Por isso o chinês tem milhares deles, e não 26.
Quase ninguém sabia ler. Escrever era trabalho de poucos: os escribas e os adivinhos da corte. O resto das pessoas guardava tudo de cabeça e passava adiante falando.
Escreviam no que havia. Riscavam cascos de tartaruga e ossos, gravavam vasos de bronze e, mais tarde, pintavam a pincel em tiras finas de bambu, amarradas umas às outras como uma persiana. Isso era um livro. O papel só apareceria muitos séculos depois.
Para escrever o som do chinês com as nossas letras existe um sistema oficial, o pinyin. É por isso que você vai ver o mesmo livro escrito I Ching, a grafia antiga criada por ingleses, e Yijing, a de hoje. Os dois se dizem mais ou menos "i tching".
O I Ching saiu da China e deu a volta ao mundo. Em 1924, um alemão que tinha vivido anos na China, Richard Wilhelm, publicou uma tradução que se espalhou pelo Ocidente. No Brasil ela sai pela Editora Pensamento, e muita gente a conhece como "o livro verde".
Quando alguém joga três moedas e lê um hexagrama num site ou num aplicativo, está fazendo uma versão mais nova de uma consulta que começou nos pátios da corte Zhou.
Só que o I Ching que circula hoje mistura camadas de épocas diferentes: frases de 3 mil anos, comentários de 2 mil e leituras de ontem. Nesta jornada a gente separa uma coisa da outra com selos. Eles aparecem ao lado de cada informação:
Hao e Luoyang foram as duas capitais dos Zhou: primeiro Hao, perto da cidade que hoje se chama Xi'an; depois Luoyang. A linha pontilhada é a fronteira da China de hoje, só para você se situar.
Tudo o que vem nos próximos capítulos acontece neste pedaço do mapa, em volta do Rio Amarelo. E, quando as frases do I Ching foram escritas, ninguém dali sabia que existia uma América.
Muitos caracteres começaram como desenhos. 木 (mù) é uma árvore: o tronco, os galhos, as raízes. Dois juntos, 林 (lín), são um bosque. Três, 森 (sēn), uma floresta. É assim que um único sinal consegue valer uma palavra inteira. Fato
Os nomes que vão aparecer na jornada. Cada lição abre com os seus, e todos ficam guardados aqui:
Três perguntas sobre onde estamos. Abre numa janela só sua: o resto da página espera.
Que pergunta você faria ao Céu, se o rei deixasse você entrar naquele pátio?
Shaughnessy, The Origin and Early Development of the Zhou Changes, Brill, 2022 (acesso aberto) · Keightley, Sources of Shang History, University of California Press, 1978 · Penn Museum, The Case of the Wayward Oracle Bone · Universidade de Shandong, origem do Zhouyi · fuso horário: Brasília UTC−3, Pequim UTC+8 · a conta das 24 horas: de 1200 a.C. a 2026 são uns 3.225 anos; desde 1500, 526 anos, isto é, 3 h 55 min do dia.
Coleção Chinesa · em tradução
Cinco já estão prontos. Os outros 59 estão sendo traduzidos do texto antigo, separando o que tem 3 mil anos do que foi escrito depois. Deixe o seu e-mail e você fica sabendo quando estiverem no ar.
Anotado
Quando os 64 estiverem prontos, o aviso chega no seu e-mail. Enquanto isso, a Grimória tem a mesma régua em tudo: fato com fonte, tradição como tradição, lenda como lenda.
A Coleção Grimória reúne quatro volumes sobre a bruxaria praticada hoje, do primeiro grimório ao primeiro ritual completo, com o Caderno de Materiais de bônus. Cada afirmação com o selo de fato, tradição ou lenda.