Grimória · I Ching · História · Capítulo 1
A história do I Ching · capítulo 1 de 5
Há mais de 3 mil anos, um rei chinês perguntava o futuro a um casco de tartaruga. É aqui que a história começa.
卜 · bǔ · adivinhar · o desenho da rachadura
Nunca ouviu falar de I Ching? Comece por Onde estamos: a época, o lugar e as pessoas, em cinco minutos.
Anyang, norte da China, por volta de 1200 antes de Cristo, quase 2.700 anos antes de Cabral. É noite no palácio do rei Wu Ding.
Sobre a mesa do adivinho está um casco de tartaruga, raspado e polido até ficar liso como pedra. No verso, alguém cavou dezenas de pequenas covas, uma ao lado da outra. O adivinho encosta uma vara em brasa numa delas. Um estalo seco corta o silêncio. Na frente do casco nasce uma rachadura: um traço comprido e, saindo dele, um traço curto. Assim: 卜.
Ninguém respira. A pergunta da noite é sobre a rainha, Fu Hao, que vai dar à luz. O parto será abençoado? O rei se inclina sobre o casco e lê a rachadura.
Depois, um escriba, a pessoa cujo trabalho era escrever, grava no próprio casco a data, a pergunta e a resposta. Ele não sabe, mas está escrevendo algumas das palavras mais antigas da língua chinesa que chegaram até nós.
Como uma rachadura num casco pode responder a uma pergunta? E o que isso tem a ver com um livro de 64 figuras, escrito séculos depois?
Ao lado de cada informação vai um selo. Fato é o que se vê nos ossos e nas escavações. Lenda é o que se conta sem prova. Tradição acadêmica é o que a maioria dos estudiosos pensa, sem prova definitiva.
O I Ching nasce depois, com a dinastia seguinte, os Zhou, que ao lado do casco passaram a consultar com hastes de uma planta, o milefólio. As frases do livro, dizem os pesquisadores, vieram de anotações de consultas como essas, juntadas por gerações de adivinhos da corte. Tradição acadêmica
No próximo capítulo: os adivinhos da corte Zhou, e a profecia que previu o destino de uma família por oito gerações.
Pronto: 卜. Você acabou de escrever "adivinhar" do jeito que os escribas de Anyang escreviam há 3 mil anos. Um sinal, uma palavra inteira: é isso um caractere.
No casco de Fu Hao, o escriba voltou depois e gravou o que aconteceu: 31 dias mais tarde ela deu à luz, e a inscrição registra que "não foi bom: foi uma menina". Para a corte, o que contava era ter um herdeiro homem. Guardar pergunta, resposta e resultado é o costume que, séculos depois, vai virar as frases do I Ching. Fato
Três perguntas sobre o capítulo 1. Abre numa janela só sua: o resto da página espera.
Se você pudesse gravar uma única pergunta num casco, para ser lida daqui a 3 mil anos, qual seria?
Objetos do dia a dia na dinastia Shang (History.com, com curadoria do Smithsonian) · Penn Museum, The Case of the Wayward Oracle Bone · Academia Sinica, casco com escrita em cinábrio · LibreTexts, Oracle Bone Divination · Universidade de Shandong, origem do Zhouyi · Shaughnessy, The Origin and Early Development of the Zhou Changes, Brill, 2022 (acesso aberto) · Keightley, Sources of Shang History, University of California Press, 1978 (a inscrição do parto de Fu Hao, Heji 14002)
Coleção Chinesa · em tradução
Cinco já estão prontos. Os outros 59 estão sendo traduzidos do texto antigo, separando o que tem 3 mil anos do que foi escrito depois. Deixe o seu e-mail e você fica sabendo quando estiverem no ar.
Anotado
Quando os 64 estiverem prontos, o aviso chega no seu e-mail. Enquanto isso, a Grimória tem a mesma régua em tudo: fato com fonte, tradição como tradição, lenda como lenda.
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